Masterbook · Frete Lucrativo
Capítulo 07 · Cultura
07

A coisa mais cara do mundo hoje é a ignorância.

Painéis fonte
LVA + 4D Group · Marcos Carraro + Raizen + IP · Ghelleri Transports
Painelistas
Vanessa+Anderson Ribeiro · Cristiano Damasceno · Carraro · Lucas Carminatti · Ricardo Dalzotto · Eduardo Ghelere
Tempo de leitura
≈ 13 minutos

Três painéis distintos do Frete Lucrativo convergiram em uma mesma tese editorial — talvez a mais incômoda do evento. O que separa transportadora que dobra de tamanho da que afunda em três anos não é frota, não é cliente, não é frete. É cultura. E cultura, no transporte, é o que sustenta legado depois que o fundador sai do palco.

A LVA de Anderson e Vanessa Ribeiro mostrou a sucessão conjugal como salto. Marcos Carraro destilou o conceito de empresa educadora — a partir do recorde americano de soja que distribui as melhores sementes aos vizinhos. Eduardo Ghelere, da Ghelleri Transports, transformou propósito em filtro operacional (“transformar a logística no interior do país”) e entregou 25% de EBITDA por cinco anos consecutivos.

As três operações falam com vocabulário diferente, mas dizem a mesma coisa. Accountability fura a bolha. Sucessão é barbante. Ignorar custa caro. E quem confia o legado às pessoas certas chega mais longe que quem confia ao preço da prateleira.

5 → 180
Frota LVA — 2018 → hoje
Vanessa eleita melhor gestora SSMA Brasil pela Raizen em 4 anos
R$ 37
Prêmio por viagem que LVA captura vs concorrente CE
676 sacas/ha
Recorde David Hula (média Brasil: 150)
25%
EBITDA Ghelleri — entregue 5 anos seguidos
< 2%
Custo P&M Ghelleri (mercado 2-3%)
7.1

Accountability fura a bolha

O painel de abertura do Frete Lucrativo (LVA + 4D) começou com a frase que serviria de chave para todo o evento. Flávio Batista, mediando, descreveu o que ele chama de motor de crescimento real:

Nós não somos aquilo que a gente pensa, nós somos o nosso resultado. Quanto mais autorresponsável eu sou, mais eu sei que eu preciso ter pessoas que me cercam para que me protejam das minhas próprias limitações e para que eu possa furar as bolhas da minha limitação.
Flávio Batista · FB Consult

Não é discurso motivacional. É operação. Empresário do transporte que se cerca só de quem concorda com ele para no teto da própria cabeça. Quem traz consultor, parceiro técnico e sócio com competência complementar quebra esse teto. A LVA é o caso prático.

7.2

Vanessa larga Odontologia e vira protagonista

Vanessa Ribeiro estava no sexto período de Odontologia, concursada do Estado, planejada para uma carreira no mundo da saúde. Flávio foi cirúrgico em uma conversa: “larga isso e vai cuidar do que é teu”. Em 2018 a LVA tinha 5-7 caminhões. Hoje, 180+ veículos.

Eu não entrei na LVA para ajudar o Anderson, eu entrei para ser protagonista junto com ele. E isso não tira o brilho dele, não tira o meu.
Vanessa Ribeiro · LVA Transportes

Em 4 anos prestando serviço à Raizen, Vanessa foi eleita por duas vezes uma das melhores gestoras de SSMA do Brasil. A LVA foi a transportadora mais rápida a homologar na história da Raizen — e a primeira nova empresa a ter contrato com regime fixo + variável.

Flávio cravou no palco a tese que poucas vezes se ouve em evento de transporte:

No transporte rodoviário, os cases de maior sucesso são empresas familiares. Eu não tenho nenhum cliente ao longo da minha jornada em que a esposa trabalhe com o marido e o negócio não dê certo. Zero.
Flávio Batista · FB Consult
7.3

Modelagem — comprar conhecimento de quem já fez

Anderson queria que a LVA fosse como a Lima Transportes — referência que ele admirava há anos. Em vez de aprender por tentativa e erro durante 5 anos, contratou exatamente o consultor que tinha construído a gestão da Lima. Esse atalho tem nome:

O nome disso que o Anderson fez é modelagem. Ele comprou o conhecimento. Ele não ficou aprendendo cinco anos como é que ia ser transportador da Raizen, não. Ele foi lá e disse: vem cá, quem é a empresa que mais homologou transportadores na história da Raizen?
Flávio Batista · FB Consult

O ponto se conecta diretamente ao Capítulo 5 da Diversificação — Karsten trouxe CFO de mercado, frotista de mercado, gerente de logística de mercado. Quem reconhece que não é o melhor em algo e contrata quem é, acelera anos.

7.4

A coisa mais cara do mundo é a ignorância

Marcos Carraro abriu o segundo painel cultural do evento com uma sentença que carregou o resto do dia.

Qual a coisa mais cara do mundo hoje? Qual a coisa que mais leva dinheiro? Ignorância. A ignorância leva uma nação à destruição, uma família, um homem e uma empresa.
Marcos Carraro · Carraros Seguros

O case prático que ele trouxe deixou claro de onde sai o argumento: David Hula, recordista americano de soja por hectare, colhe 676 sacas por hectare — mais de 4 vezes a média brasileira (150). E, todo ano, ele leva 100 saquinhos de suas melhores sementes para feiras e distribui aos concorrentes. A racionalidade:

Se os meus vizinhos tiverem uma semente ruim, a semente ruim dele vai vir no meu terreno e vai me estragar. Mas se eu der semente boa para eles, em volta de mim vão ter excelentes plantadores de soja com ótimas técnicas, que vão estar ajudando eu mesmo a crescer.
Marcos Carraro · Carraros Seguros · sobre David Hula

Eduardo Ghelere endossou no painel seguinte e citou Carraro nominalmente:

Conhecimento se compartilha — um mais um dá três. Porque tu aprende com a outra pessoa quando está ensinando.
Eduardo Ghelere · Ghelleri Transports
7.5

A frase do para-choque

Quando Flávio pediu a Carraro para resumir a tese do painel em uma frase para o para-choque de um caminhão, veio a síntese editorial que viraria âncora do capítulo:

O preço passa, a confiança fica. Seja nos negócios, seja na estrada, quem entrega a confiança chega mais longe.
Marcos Carraro · Carraros Seguros

Lucas Carminatti, da Raizen, devolveu com uma definição operacional de legado:

O legado não é o que a gente deixa para as pessoas, e sim o que você deixa nas pessoas.
Lucas Carminatti · Raizen

Aplica-se à relação embarcador–transportador (a confiança construída sobrevive a mudanças de tabela), à sucessão familiar (o que o sucessor herda é mais que CNPJ — é repertório operacional), e ao time interno (a Ghelleri tem propósito que pauta do RH ao abastecedor).

7.6

Propósito como filtro — modelo Ghelleri

Eduardo Ghelere abriu o painel próprio com a missão da empresa formulada como filtro operacional. Não é placa na parede, é critério de decisão.

A missão da Ghelleri Transports é transformar a logística no interior do país. Todo mundo que trabalha lá sabe disso. Cada pessoa — o cara que está abastecendo, o cara do RH — no final, ele entende que esse é o propósito da empresa.
Eduardo Ghelere · Ghelleri Transports

Com 150 DAFs, sede em Cascavel/PR e EBITDA buscado de 25% (entregue 5 anos consecutivos — 2019, 2020, 2021, 2022, 2023), a Ghelleri tem permissão de palco para o discurso. As decisões operacionais saem direto do filtro:

O mantra que Eduardo cravou no palco para resumir o método:

Tudo que você for fazer na empresa, não é custo — é custo-benefício, ponto. Outra coisa: tudo que você está fazendo hoje tem que ter integração. Se não for web, tu já deixa meio de lado.
Eduardo Ghelere · Ghelleri Transports
7.7

WD40 — a tese da 40ª tentativa

Eduardo fechou seu painel com uma analogia que vale como tese cultural do capítulo todo:

Todo mundo conhece o WD40. WD40 é porque o cara tentou 40 vezes. Tornou-se tão bom que o nome da empresa virou WD40, mas não era esse o nome da empresa. É assim que funciona a vida.
Eduardo Ghelere · Ghelleri Transports

Construir sistema, BI, IA, integração, data lake — dá trabalho, leva tentativa atrás de tentativa. Engenharia de obra pronta é fácil. Quem aceita o erro como parte do processo, entrega. Quem desiste na 5ª tentativa não chega na 40ª.

7.8

Bom gestor forma time — não absorve conhecimento

Anderson Ribeiro fechou o painel da LVA com a lição que ele destacou como mais importante:

Um bom gestor precisa formar time. Um bom gestor não pode absorver conhecimento. Se você tem um gestor ali que você não consegue promover, é sinal que aquele supervisor seu não serve.
Anderson Ribeiro · LVA Transportes

Gestor que retém conhecimento prende o time inteiro. O subordinado não evolui — fica preso na função. A pirâmide para de mexer. Empresa com pirâmide travada não escala. Empresa com pirâmide rotativa, sim.

7.9

Consultoria é exigência, não bengala

Vanessa Ribeiro contou, sem aliviar, a expectativa errada que ela teve ao contratar consultoria. Achou que o consultor faria o trabalho que o time interno não estava fazendo. Aconteceu o oposto.

Você está contratando uma consultoria e eu não quero que seja uma bengala para você. Eu quero que vocês, muito em breve, comecem a ganhar dinheiro. Veio mais demandas, era o verdadeiro patrão, sabe, chato.
Vanessa Ribeiro · LVA + Flávio Batista · FB Consult

Padrão que Flávio descreveu no palco: a FB Consult mantém 2 consultores por cliente — líder estratégico + entregador. Consultor sozinho, sem gestão, vira amigo da transportadora e para de tirar o cliente da zona de conforto. Troca periódica força a empresa a esforços diferentes — vale para músculo, vale para cérebro.

Ações imediatas para construir cultura — e legado

A checklist da cultura

  1. Definir o propósito da empresa em uma frase. Garantir que todo colaborador saiba qual é — do RH ao abastecedor.
  2. Estabelecer metas de horizonte longo (frota, faturamento, segmento). Meta baixa atrasa o crescimento por anos.
  3. Mapear competências do casal/família e atribuir papéis por aptidão — não por gênero ou ordem de chegada.
  4. Identificar a empresa-modelo do seu segmento. Contratar quem construiu aquele case. Modelagem > tentativa e erro.
  5. Auditar se gestores promovem subordinados ou retêm conhecimento. Pirâmide travada = empresa travada.
  6. Trocar de consultor periodicamente — evita zona de conforto com prestador externo.
  7. Compartilhar conhecimento com pares (eventos, mentorias, grupos) — vento e água da informação carregam pra trás de qualquer jeito.
  8. Calcular cada frete antes de aceitar. Se diesel passar de 40% do custo, recusar — não tem renegociação rápida.
  9. Demitir cliente que não remunera custo + risco — 90 dias de aviso por escrito.
  10. Avaliar opcionais de segurança pelo ROI vs sinistro evitado — não pela etiqueta.
  11. Tratar consultoria como exigência, não muleta. Resultado vem do esforço interno.
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