Thalita Costello · Gabriel Salgado · Diogo · Flávio Batista
Tempo de leitura
≈ 10 minutos
A torre de controle parou de ser pauta de empresa grande. Quem ainda trata torre como “coisa pra quem tem 500 caminhões” está perdendo, todo dia, dinheiro que cabia no caixa do mês seguinte. O painel da Marvel mostrou em números: torre não exige software caro, exige cultura de gestão. E o protótipo que funciona é uma planilha dinâmica de Excel.
Thalita Costello, diretora de operações da Marvel — frota que saiu de 400 para 1.500 caminhões próprios entre 2021 e 2025 — abriu a apresentação tirando o glamour da palavra: torre é a estrutura que monitora rodagem em tempo real e age sobre desvio. Não é painel pra reunião de diretoria. É órgão executivo da operação.
Gabriel Salgado, da FS Bioenergia, complementou do lado do embarcador: torre que não conversa com cliente é só rastreamento. E Flávio Batista trouxe o modelo que virou produto consultivo: o Pai da Improdutividade — toda hora de caminhão parado precisa ter um responsável nomeado dentro da empresa, e esse responsável vai à reunião de resultado se explicar.
650 km/d
Meta de rodagem por motorista — Marvel
300 km/d
"Marcha lenta" — referência negativa
3min 20s
Tempo médio de tratativa por não conformidade
38 → 23
Caminhões para mesma rota (case FS Bioenergia)
R$ 360 mil
Economia em 90 dias com torre em Excel (59 eixos)
400 → 1.500
Caminhões Marvel pós-M&A (2021 → 2025)
6.1
Meta de rodagem como métrica viva
O alicerce da torre Marvel é uma meta simples e dura: 650 km por dia por motorista, em média. Se rodar menos, soa alerta. Se rodar mais, também — porque pode estar furando intervalo legal, comprometendo segurança ou maquiando relatório. A meta vira métrica viva quando o sistema avisa em tempo real, não no fechamento do mês.
A nossa meta de rodagem é 650 km, em média, por dia. Se o motorista rodar menos que isso, eu sou avisado. Se ele rodou mais do que isso, eu sou avisado. Aquele motorista que a gente acha sensacional, mas roda 300 km por dia, o famoso marcha lenta.
Thalita Costello · Marvel
O “marcha lenta” é o personagem que toda transportadora tem e ninguém percebe. Motorista cordial, sem reclamação, sem incidente — e rodando 300 km/dia, parando em todo posto, fazendo café virar refeição completa. Em uma frota de 100 caminhões, 5 motoristas marcha lenta representam 5% de produtividade perdida que ninguém contabiliza.
6.2
Toda torre nasce em Excel
O ponto mais subversivo do painel foi o desmonte da desculpa tecnológica. Empresário pequeno costuma dizer que precisa primeiro contratar consultoria de TMS, depois implementar software, depois treinar time, depois talvez ter torre. Thalita fechou o assunto:
Faz em planilha de Excel. Faz uma forma lá, coloca a quilometragem que o caminhão está rodando no dia. Isso tem que ter — tendo 30 caminhões ou tendo 2 mil caminhões. Torre de controle é algo fundamental para a tua produtividade.
Thalita Costello · Marvel
Flávio reforçou com um case prático que virou modelo replicável dentro da FB Consult — uma operação de container Santos→Goiás, transportador médio, 59 eixos. Implantação de torre em Excel rodou por 90 dias.
Nós temos um case com um transportador que carregava em Santos para Goiás, container, e nós fizemos um esboço de uma torre. Com 90 dias, uma operação pequena de 59 eixos, a gente trouxe R$ 360 mil de economia. No Excel.
Flávio Batista · FB Consult
6.3
O Pai da Improdutividade
Aqui está o produto que rendeu a maior parte do trabalho consultivo recente da FB Consult — e a metodologia que muda a cultura de uma transportadora em 90 dias se aplicada com disciplina. A ideia é uma só: cada hora de caminhão parado precisa ter um pai.
Cada momento que o caminhão para, eu arranjo um pai para ele. E eu boto na conta de alguém. E esse alguém tem que ir se constranger na reunião de resultado, dizer por que é que o RH deixou 2.020 horas de caminhão parado.
Flávio Batista · FB Consult
O método funciona assim:
Caminhão parado por falta de motorista? Pai = RH.
Caminhão esperando reunião que começou às 8h em vez das 5h30 combinadas? Pai = SSMA.
Caminhão parado por documento de cliente pendente? Pai = Comercial.
Caminhão parado em manutenção corretiva? Pai = Frota.
Caminhão sem combustível na hora certa? Pai = Financeiro / Suprimentos.
O “pai” não está sendo punido — está sendo medido. Em reunião de resultado, o gerente de cada área precisa explicar quantas horas o caminhão parou “por causa dele”. A pressão social faz o sistema corrigir-se. Quando o RH se vê responsável por 2.020 horas paradas em 30 dias, dispara o processo de contratação antes do gargalo.
Romantismo zero
Ineficiência interna não pode virar conta do embarcador. Frete justo só é cobrável se a ineficiência for de mercado (inflação, diesel, prazo de descarga do cliente). Se o problema está dentro de casa, é problema seu — não cobre do cliente.
6.4
Torre reativa × torre preditiva
Gabriel Salgado, da FS Bioenergia, fez a diferença clara. Torre reativa é a que olha o que aconteceu — caminhão chegou, baixa-se imagem, estuda-se imagem. Torre preditiva é a que age em tempo real, com IoT no caminhão, IA processando sinais (freada brusca, rota desviada, comportamento atípico) e decisão sendo tomada sem precisar humano analisando frame a frame.
Tem que ser muito mais tempo real preditiva. Hoje, você faz isso em tempo real. Logo, logo, você não precisa nem ter gente para analisar essas imagens. A inteligência artificial já faz isso para você.
Gabriel Salgado · FS Bioenergia
O case que ele trouxe é o número-âncora do capítulo. Rota Primavera do Leste → Rondonópolis (descarga na ferrovia). A transportadora parceira fazia o fluxo com 38 caminhões. Após a FS Bioenergia implantar torre de controle (em 6 meses, com o mesmo transportador), a operação passou a fazer o mesmo volume com 23 caminhões. Ganho de produtividade: 39% — sem trocar de fornecedor, sem trocar de caminhão, só estudando método, tempos e movimentos.
6.5
Torre que não conversa com o embarcador é rastreamento
A frase que melhor fechou o painel veio de Gabriel Salgado, definindo a fronteira entre torre e tela:
Isso daí não é torre de controle, isso é rastreamento. Torre de controle é trocar informação com o cliente e dizer: olha, meu caminhão está parado há X horas. Você está vendo isso, Gabriel? Sim, estou vendo. Então, eu vou agir desse lado aqui.
Gabriel Salgado · FS Bioenergia
A diferença operacional é grande. Rastreamento te diz onde o caminhão está. Torre te diz o que fazer agora que o caminhão está parado mais do que deveria — e quem precisa agir do outro lado. Embarcador maduro quer parceira de torre, não fornecedora de coordenada GPS.
6.6
Os três pontos que o cliente alimento quer ver
Thalita destilou em três variáveis o que o embarcador do segmento alimento quer da torre. Vale como exercício: quais são as três variáveis críticas do seu cliente?
Os nossos clientes no alimento estão se preocupando com três pontos. O caminhão na planta no horário certo, no dia certo. O caminhão na entrega no horário certo, no dia certo. E a temperatura da carga.
Thalita Costello · Marvel
Quem opera para alimento refrigerado mede esses três. Quem opera para combustível mede outros — disponibilidade da bomba, certificado de produto, prazo de descarga em base. Quem opera para varejo mede janela de descarga, agendamento, devolução. A torre deve responder pelo que o cliente cobra — não pelo que parece bonito no dashboard.
6.7
Empresa é um CNPJ só
Diogo, da Solística (DHL Group), trouxe o último piso conceitual da torre — a lógica do CNPJ único.
A gente tem que parar de pensar que cada área é um CNPJ. A gente tem um CNPJ matriz, que é o final 0001. Depois você tem o final do RH é o 02, o final do gestão de frota é o 03. A gente tem que tentar e sempre focar no único CNPJ que é o final 0001.
Diogo · Solística (DHL Group)
RH demorando para contratar motorista é a operação perdendo produtividade. Jurídico atrasando contrato é o comercial perdendo cliente. Frota mandando peça paralela é torre tratando manutenção corretiva. As fronteiras internas são fingidas — o cliente final vê uma transportadora só. A torre é o lugar onde essas fronteiras precisam desaparecer, porque é onde a entrega final ao cliente é medida.
Ações imediatas — implantar torre nos próximos 60 dias
A checklist da torre
Abrir planilha de Excel hoje. Listar todas as placas e a meta de km/dia de cada uma. Não precisa software.
Definir os 3 pontos que o seu segmento de cliente prioriza — medir só esses na torre. Marvel: planta + entrega + temperatura. Qual o seu trio?
Implantar o Pai da Improdutividade: cada hora parada tem um responsável nomeado. RH, SSMA, Comercial, Frota, Financeiro.
Trazer o responsável para a reunião de resultado mensal. Constrangimento é parte do método.
Identificar os “marcha lenta” da frota (motoristas rodando muito abaixo da meta). Conversar. Treinar. Se persistir, trocar.
Conectar torre interna com torre do embarcador — pelo menos os 3 grandes. Sem isso, é rastreamento.
Tirar romantismo: separar o que é ineficiência sua (não cobre do cliente) do que é mercado (negocie reajuste com argumento técnico).
Tratar empresa como CNPJ único final 0001 — cada área que se vê como ilha é um centro de custo invisível.
Caderno do leitor
Anote o que vai virar ação na sua transportadora.
Seus dados ficam só no seu navegador. Imprima esta página (Ctrl+P) para levar à reunião de diretoria.